sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sobre “Ciranda Negra”, de Eni Allgayer



Eni Allgayer fazia uma sessão de autógrafos do seu último livro (de contos) Ciranda Negra na Feira do Livro de São Leopoldo, em 2011. Aproveitei a oportunidade para adquiri-lo, pois muito já ouvira falar sobre a capacidade literária da autora.

Entretanto, o título do livro me inquietou. Era paradoxal: “ciranda” é uma música alegre, marcada, que se dança com vestes coloridas em roda. Mas o que me intrigou foi o adjetivo “negra”. O que significaria? Mal? Infelicidade? Morte?

E o livro foi para a minha “fila de leitura” (sempre tenho livros não lidos: que recebo de presente ou que compro).

Ontem chegou a vez do livro de Eni. E de novo a capa com corvos voando em círculo me incomodou.

E comecei a leitura. Li-o todo, sem parar com Eni me conduzindo pelos meandros de suas narrativas.

O conto que dá título ao livro reporta a uma ciranda de justiça feita com as próprias mãos, segundo o preceito bíblico “olho por olho, dente por dente”. E a justiça negra é o prato dos urubus que, voando em círculo, aguardavam seu alimento.

Eni mostra-se mestre em dizer sem escrever, em finais inusitados, em levar o leitor interessado até o final do conto (em alguns deles respirei fundo: ufa!), preso às personagens muito bem construídas (algumas pensei até que conhecia) e na teia do enredo.

E as personagens? Quem são? Os pobres sofredores, marginalizados por esta nossa sociedade de consumo, que se arrastam numa vida madrasta, sem nem saberem bem por que vivem: catadores de lixo, favelados, maridos bêbados que batem nas mulheres, agricultores pobres, e todos os demais pobres, para os quais a “indesejada das gentes” (como diz Manuel Bandeira) volta sua atenção. E não seria ela a liberdade? Como para Brunilda (do conto “Segredos”), adolescente que inocente engravidou e foi desprezada pelo pai e pela mãe e para ser livre como uma borboleta se atirou nua do galho de uma caneleira com uma corda amarrada ao pescoço, voando de braços abertos rumo à água.

As personagens conduzidas pelo fio invisível da emoção de Eni buscam essa liberdade que elas não sabem onde está. Talvez no “anjo negro”, que está à espreita, esperando qualquer deslize para levá-las. Isso acontece de uma maneira tão natural que ao leitor cabe conformar-se com o destino dessas criaturas.

Um conto que explica muito bem o título do livro é “Um gato entre achados e perdidos” cujas personagens que formam a ciranda são: uma faxineira pobre, uma mulher rica e um ladrão de bancos, cujas vidas se cruzam. E como? A faxineira espera para atravessar a estrada, o ladrão vem em alta velocidade e colide com o ônibus no qual viaja a mulher rica. E a trama? Perfeitamente urdida: a mulher havia matado o marido alérgico a picada de abelhas, com o veneno delas, mas possuía uma segunda opção: uma garrafa de vinho com ricina, toxina botulínica e curare. Na batida, a mulher atira a bolsa com a garrafa no lixo que a faxineira pega e esconde, assim como faz com dois maços de notas do carro do ladrão. Em casa, o marido bêbado tira-lhe a garrafa e bebe o vinho, morrendo de “ataque do coração”. Mas ela ficou com o dinheiro.

O principal que senti nos contos que acabei de ler foi o sentimento de Eni percorrendo cada personagem, cada local e tecendo a trama até nos atingir, leitores, em cheio.


Ao terminar o livro parece-me ter entendido a antítese que tanto me provocara: ciranda = alegria, vida, realçada pelo seu contrário: negra = tristeza, morte.

Mardilê Friedrich Fabre

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