terça-feira, 11 de agosto de 2015

Entrevista com Volnei Canônica

"Quero ver territórios leitores mais fortalecidos", afirma Volnei Canônica, novo titular da DLLLB/MinC


Confira entrevista exclusiva com Volnei, integrante do Conselho Deliberativo do Movimento por um Brasil literário, e novo Diretor do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca do Ministério da Cultura.

O Movimento por um Brasil literário se alegra em ver um de seus integrantes e grande promotor do "ler, levar a ler e defender o direito de ler literatura" à frente da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca do Ministério da Cultura (DLLLB/MinC). Ele nos concedeu entrevista exclusiva, em que conta um pouco sobre as prioridades estratégicas da DLLLB, a ampliação de diálogo entre MinC e MEC para a efetividade da Lei 12.244/10 (Saiba mais em www.euquerominhabiblioteca.org.br), e suas metas e sonhos por um Brasil de leitores.

Canônica é especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Graduado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pela UCS, Volnei Canônica também é ator e diretor de teatro. Desde março de 2011, vinha coordenando o programa Prazer em Ler do Instituto C&A.

MBL: Como sociedade civil, iniciativa privada e governo podem atuar de forma a cooperar e evitar sobreposições para a construção e qualificação de políticas públicas de leitura e biblioteca?

Volnei Canônica: A primeira coisa a ser feita é o reconhecimento dos atores e das ações de promoção da leitura. É urgente que a sociedade civil, iniciativa privada e poder público sentem para conversar. Somos um país de dimensões continentais e por essas minhas andanças tenho encontrado muitas ações de promoção da leitura realizadas por esses diferentes atores. Mas apesar do objetivo ser o mesmo, ainda falta muito diálogo. Precisamos parar de almejar o protagonismo. O cenário nos aponta para a cooperação. Necessitamos fortalecer o território leitor e isso não significa fazermos milhões de ações desencontradas.
A sociedade civil tem o contato direto com os leitores, está nesta batalha de mobilização da população para a causa da leitura muito antes do governo e da iniciativa privada. A sociedade sabe, ou desconfia, da diferença que a Literatura pode trazer no processo da garantia de direitos.
A iniciativa privada não tem só o recurso financeiro. Ela possui expertises que contribuem para os impactos, para um direcionamento, para um melhor planejamento da ação, para a sinergia.

Já ao poder público cabe fomentar este diálogo, construir marcos legais e garantir recursos para a sustentabilidade das ações de promoção da leitura.

O Brasil tem um povo guerreiro que, mesmo com a ausência do Estado, tem levado a leitura e a Literatura por meio das bibliotecas escolares ou das salas de aula por professores que entendem que seu papel de educador vai além da alfabetização e do conteúdo.

Multiplicam-se mediadores de leitura de bibliotecas comunitárias ou bibliotecas móveis que estão rodeados de meninos e meninas à procura de uma história.
Tenho encontrado muitas bibliotecas públicas com bibliotecários comprometidos com a Literatura, a informação e o conhecimento.

Os nossos escritores, ilustradores, designers gráficos e editores produzindo Literatura e livros de qualidade que enchem os olhos e as almas de brasileiros e estrangeiros.
Livrarias e cafés que a todo tempo se reinventam e promovem saraus, bate-papos, leitura de histórias, sempre na intenção de dar acesso a todo esse universo ficcional e do conhecimento.

Se conseguirmos reunir numa mesa redonda, sociedade civil, iniciativa privada e poder público para juntos planejarmos e desenvolvermos os nossos papéis nesta cooperação, não tenho dúvida que vamos avançar muito. Os desafios são grandes, mas nossa capacidade de construção coletiva tem de ser bem maior.

Eu acredito nesta forma de trabalhar, sem querer minimizar o dever do Estado de garantir Educação e Cultura para todos!  
Soma-se a tudo isso a importância da criação dos Planos Municipais e Estaduais do Livro e Leitura. Os planos devem ter a capacidade de reunir os atores para discutir as prioridades num território e disputar o orçamento público. Precisamos pensar a leitura em territórios.

MBL: Quais as prioridades estratégicas da DLLLB?


Volnei Canônica: A Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca em sua atual configuração é muito recente e nos últimos quatro meses ficou sem diretor. Claro que isso não impediu que as ações acontecessem porque a DLLLB tem uma equipe comprometida e administrou, dentro de suas possibilidades, o que era prioridade. Além disso, a DLLLB não conta, neste momento, com recursos financeiros suficientes para tudo que necessita. Já dá para ver que o desafio é dos bons!
Partindo deste cenário as prioridades são:
- Estruturar a Diretoria de modo que a equipe se sinta confiante em realizar suas ações, facilitando assim a agilidade nos processos;
- Valorizar, dar visibilidade e fortalecer as ações já desenvolvidas pela Diretoria;
- Fortalecer programas importantes como o PROLER e o Mais Bibliotecas;
- Dar estímulo à participação de novos escritores em feiras nacionais e internacionais;
- Reabrir a Biblioteca Demonstrativa de Brasília;
- Valorizar os esforços da sociedade civil para promover o acesso ao livro e a Literatura para todos;
- Viabilizar o aumento dos recursos financeiros para a Diretoria dentro do MinC e por meio de parceiras;
- Trabalhar para a aprovação da Lei do Fundo Pró-Leitura;
- Trabalhar para a aprovação da Lei do Plano Nacional do Livro e Leitura;
- Fomentar a construção dos Planos Municipais e Estaduais do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca;
- Ter um bom diálogo e construir parcerias com atores da cadeia do livro (editores, livreiros, escritores, ilustradores, designers, livrarias, distribuidores, mediadores de leitura, professores, universidades, bibliotecários etc);
- Promover territórios leitores;
- Mobilizar a sociedade brasileira para a causa da leitura e para o valor simbólico que representa ter o livro aberto, possibilitando o acesso ao conhecimento e à cultura, patrimônio da humanidade.

MBL: Como ampliar diálogo entre MinC e MEC para a efetividade da Lei 12.244/10?


Volnei Canônica: É importante dizer que o Plano Nacional do Livro e Leitura nasceu deste diálogo entre o MinC e o MEC com um importante papel da sociedade civil. Mas, por um período – 2011 a 2013 – esse diálogo foi enfraquecendo porque o próprio governo deixou de priorizar o PNLL. É importante também pensarmos que existe um rodízio muito grande de pessoas no poder público, o que dificulta muito este diálogo. Às vezes é um constante recomeçar. Mas é preciso que seja dito que este diálogo já foi retomado e que existem já alguns encaminhamentos para pensarmos também, em diálogo com instituições que estão diretamente ligadas para efetivação desta Lei, ações concretas. Vejo este cenário não só como um grande desafio, mas como um importante passo para a construção de um país leitor para o qual estamos (Minc e MEC) dispostos a olhar com mais atenção.


MBL: Como a DLLLB pode contribuir para que a leitura literária esteja mais presente na agenda nacional de educação e cultura?

Volnei Canônica: Cabe à DLLLB pensar o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas atuante e moderno em diálogo com as Bibliotecas Comunitárias; a Leitura como um processo de acesso à informação, à ficção, à cultura e à cidadania; o valor simbólico e econômico que o livro, a leitura e a Literatura estabelecem na sociedade e a valorização e formação de pessoas e instituições para atuarem neste processo.

Acredito na Literatura como um Direito que, se acessado, possibilita ao ser humano organizar seus conhecimentos e argumentos para a conquista de todos os outros direitos. Um ser humano mais pleno de seu papel na sociedade.
A DLLLB pretende trabalhar muito próxima às ações do MEC. Acredito neste diálogo e que juntos podemos reafirmar, ainda mais, o papel da Literatura na construção de cidadania. A presença da Literatura começa nas famílias e perpassa todas as outras instituições da sociedade.
O Ministro Juca está nos trazendo o desafio de pensar uma grande campanha de mobilização da sociedade brasileira para a causa da leitura. Não tenho dúvida que o único caminho é a leitura literária.


MBL: Um sonho, uma meta da sua gestão?

Volnei Canônica: Sou feito de sonhos! Sou ficção! Como meta quero ver territórios leitores mais fortalecidos. Que todos os atores que são importantes para a promoção da leitura estejam em diálogo. Que minha frase “Um por todos e todos por um Brasil de leitores!” não seja só um slogan, mas que seja o caminho percorrido entre o arco e o alvo.

Toda força nessa empreitada! Estaremos juntos cumprindo nosso compromisso por um Brasil literário.

http://www2.brasilliterario.org.br/pt/noticias/reportagens/entrevista-quero-ver-territorios-leitores-mais-fortalecidos-afirma-volnei-canonica

Colaboração: Wagner Coriolano

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