quinta-feira, 11 de junho de 2015

SCHNEIDER, Henrique. O tempo quase. Belo Horizonte: Lê, 2014. 64 p





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O tempo quase, de Henrique Schneider, além de posicionar o leitor diante de um sentido de quase, ao abordar o tema da morte na adolescência, o coloca em contato principalmente com a criação literária, dado que nas orelhas do livro desenvolve, em forma de crônica, um contraponto ao enredo da novela. Tanto na declaração “é o meu primeiro livro dirigido ao leitor adolescente” como na afirmação “a literatura não está aí para responder perguntas ou passar mensagem”, o escritor continua no terreno da criatividade, em espaço geralmente ocupado pelo texto de opinião.

No acúmulo da crítica a narrativas anteriores, encontram-se apreciações que podem ser constatadas também em O tempo quase. O leitor tem a impressão de vivenciar os acontecimentos, justamente pela intensidade dramática com que o escritor constrói as cenas. Consistente, a linguagem é moderna e bem realizada, do ponto de vista da mistura da língua portuguesa com a contribuição da linguagem advinda da expressão da juventude. De maneira absolutamente fascinante, conta o motivo que levou Martina ao ato desvairado de tentar a morte, de terminar com a própria vida, o que tem a ver com suas dúvidas, sobre o momento certo de ceder ao desejo do corpo.

Em visita ao site de Henrique Schneider, cujo endereço encontra-se ao pé da segunda orelha, é possível reconstituir um retrato de escritor. Natural da cidade de Novo Hamburgo, onde ainda reside, há muito tempo transita na advocacia, na imprensa e na cena literária. Ainda jovem publicou a primeira novela, Pedro Bruxo (1984), em edição da Metrópole e reedições da Caetés, pequenas editoras. Em seguida, retorna com O Grito dos Mudos (1989), vencedor do Prêmio Maurício Rosemblatt, na categoria Romance, editado pela L&PM e mais tarde pela Bertrand Brasil. Este romance obteve excelente recepção da crítica, que apontou no escritor o domínio da arte e poder de comover o leitor. Com A Segunda Pessoa (1999), publicado pela Mercado Aberto, repete o acerto de mão no ato de contar a história, prosa sensível, que desnuda aos olhos do leitor a história de uma separação, conforme observou a escritora Simone Saueressig. O quarto romance vem após quase uma década e arrebata o Prêmio Livro do Ano, da Associação Gaúcha de Escritores/Ages, na categoria narrativa longa. Contramão (2007) conta a história de um homem que ao fugir de um acidente segue em direção a seu destino.

A representação do drama do suicídio na adolescência se configura, de acordo com O tempo quase, como um acontecimento na vida de famílias felizes, normais, em que o jovem tem as necessidades atendidas e a proteção dos pais. A médica Anita e os pais de Martina concordam em que seus filhos adolescentes vivem com o melhor. “Eu entendo a sua angústia. Também sou mãe, tenho dois filhos adolescentes em casa. A gente faz o melhor que pode, mas nem sempre funciona: às vezes o nosso melhor passa ao lado do problema”. Contudo, o escritor extrapola o horizonte familiar ao introduzir na história a personagem do psicólogo, plantonista no hospital, cuja interlocução recoloca o problema em dimensão mais ampla. Na longa cena de seu encontro com os pais de Martina, duas intervenções se sobressaem: “a adolescência não é fácil de atravessar, e em alguns casos ela pega mais forte” e “nós não sabemos o que se passa na cabeça e no coração de quem namora. Sabe-se lá as expectativas de Martina com este namoro, o quanto dela está jogado nesta relação”.

Com sua tentativa de suicídio, Martina abre um mundo de complexidades da idade jovem que raramente os adultos conseguem perceber. Mas alguns adultos, sem saber, conseguem agir perante a dificuldade, por um sentido maior, como o faz a mãe Sônia. No curto espaço de tempo, entre a descoberta do corpo pálido e olhos revirados até o momento em que abre os olhos no quarto de hospital, Henrique Schneider costura um mosaico de pequenas cenas que circunscrevem de modo poético um fato insólito como o suicídio. Perante a morte, quem morre já não pode dizer palavras, mas deixa entrelinhas. E o que dizer das entrelinhas desta novela?

As entrelinhas, quando descobertas, revelam um conjunto de experiências poéticas, escritas e faladas, que continuam em vigor no universo da juventude. Após a entrada na UTI, um atendente entrega a Sonia um papel encontrado na roupa da filha. No bilhete, Martina informa que não quer mais viver, não consegue viver sem Eduardo. Eis a confissão amorosa sempre atual. Eduardo fica sabendo da situação e vai ao hospital. Os pais informam que Martina está na UTI e não pode receber visitas. Eduardo decide sair e procurar alguém com quem possa conversar. Procura um amigo e sentam a conversar na lanchonete próxima de casa. Eis o valor da amizade. A médica quebra as regras de horário da UTI e deixa Sônia e Renato entrarem no quarto para ver a filha Martina. Neste momento, há o questionamento da mãe feito ao pai sobre a razão pela qual a filha tomara aquela decisão. Esquecem o drama, procuram ver onde poderia ter sido diferente. Eis o sentimento maior que tudo supera.

No curso da novela, Henrique Schneider intercala outros registros literários além do bilhete. Além de imagens como “a noite batendo clara em seus rostos” (capítulo 9) e “teias de aranha guardadas nos olhos” (capítulo 10), o leitor encontra páginas do diário de Martina, em duas ocasiões diversas, relatando em uma o primeiro encontro com o namorado, e na outra o medo de como será a primeira vez com Eduardo. E ainda, a enriquecer a novela, há duas páginas registrando o pensamento interior da mãe. Nelas, o escritor expõe ideias que oportunizam rever a denegação – que aparece também em outras passagens do texto – e pode tornar a leitura bastante oportuna. O cuidado com que constrói sua literatura, destinada ao público jovem, reafirma a perspicácia de escritor e o legado crítico que tem acolhido sua obra.



Wagner Coriolano de Abreu, autor de “Quando o teatro encena a cadeia” (Ensaio, Editora Unisinos) e “Sempre aos pares” (Crônicas, Editora Carta Capilé), professor universitário, vive em São Leopoldo – RS.

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